O Brasil tem uma capacidade impressionante de se indignar com o que pouco altera a vida concreta das pessoas — e de ignorar o que efetivamente corrói o interesse público. Enquanto parte da sociedade se mobilizou nas redes sociais por causa de um samba-enredo envolvendo Lula ou mergulha em debates moralistas sobre “defesa da família”, o Congresso Nacional avança, quase silenciosamente, em pautas que impactam diretamente o bolso do contribuinte.
O episódio mais recente é emblemático: um projeto de lei que amplia brechas para o pagamento de verbas indenizatórias e adicionais a funcionários da Câmara e Senado que, na prática, permitem ultrapassar o teto constitucional do funcionalismo público. São os chamados “penduricalhos” — auxílios, gratificações e indenizações que, embora formalmente classificadas como verbas não salariais, funcionam como mecanismo de superação do limite previsto no art. 37, XI, da Constituição.
O presidente vetou o texto. Mas o simples fato de a proposta ter avançado revela muito sobre as prioridades do Legislativo. Em um país que convive com filas no SUS, escolas públicas sucateadas e déficit fiscal crônico, a energia política de parte do parlamento parece direcionada a sofisticar mecanismos de elevação remuneratória no topo da estrutura estatal.
Trata-se de um problema estrutural. O teto constitucional foi concebido como instrumento de moralização e racionalidade fiscal. Contudo, ao longo dos anos, a multiplicação de verbas indenizatórias criou um sistema paralelo de remuneração. O resultado é uma engenharia jurídica que preserva a aparência de legalidade enquanto esvazia o espírito da norma.
Enquanto isso, o debate público é capturado por polêmicas simbólicas. A presença do nome de Lula em um desfile carnavalesco gera mais engajamento digital do que um projeto que pode custar bilhões aos cofres públicos. Discute-se moralidade privada com fervor quase religioso, mas a moralidade administrativa — aquela que envolve recursos públicos — recebe atenção periférica.
A crítica aqui não é a um campo ideológico específico. É à assimetria de indignação. Se parte da sociedade dedica horas a condenar um samba-enredo ou a exaltar um ideal abstrato de família, por que não canaliza a mesma energia para pressionar deputados e senadores quando projetos que ampliam supersalários entram na pauta?
O fenômeno é conhecido: enquanto o público se ocupa de disputas culturais, matérias de alto impacto orçamentário tramitam com menor resistência social. O custo político é baixo, a repercussão é limitada e os beneficiários são organizados e influentes.
Não se trata de negar a relevância de debates morais ou culturais. Mas é preciso reconhecer que eles têm sido instrumentalizados — consciente ou inconscientemente — como cortina de fumaça. O resultado é previsível: consolida-se um Estado caro no topo e insuficiente na base.
Queria, sinceramente, que uma parcela da sociedade brasileira se engajasse nas redes sociais para questionar pautas antipovo no Congresso com a mesma intensidade com que se mobiliza contra um presidente em um samba-enredo ou em debates moralistas — muitas vezes seletivos e hipócritas — sobre valores familiares.
Porque, enquanto discutimos símbolos, o orçamento é decidido. E quando o orçamento é decidido sem pressão social qualificada, quase sempre quem paga a conta é quem menos tem.
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