O exímio mobilizador digital – travestido de deputado federal -, Nikolas Ferreira (PL-MG), caminhou de Paracatu a Brasília para, supostamente, defender anistia aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro; protestar contra a corrupção; criticar o governo Lula; pedir a liberdade de Jair Bolsonaro; rezar pela paz; chamar a atenção para a violência e, hum, deixe-me ver o que mais… Ah! Acordar o Brasil, este gigante deitado eternamente em berço explêndido.
É claro que o jovem bezerro de ouro fez tudo isso em nome de Deus, pátria e família. Jamais passou pela minha cabeça ser por interesse pessoal e eleitoreiro. Nunca imaginei que Nikolas pudesse utilizar o sofrimento dos idiotas úteis de 8 de janeiro ou do próprio “mito” a seu favor. Sei que é um cristão, cidadão de bem a serviço do Senhor. Quem nos dera ter mais políticos assim, verdadeiramente comprometidos com o povo e o país.
Ao longo do trajeto, o pregador mineiro ratificou a iniciativa como um evento de motivação religiosa. Cercou-se da linguagem da fé e mobilizou lideranças do meio evangélico. Esse método de enquadramento produz efeitos cognitivos conhecidos e altera a forma como a pauta é processada pelo público. Misturar religião e política sempre funcionou, e em tempos de internet e redes sociais, o algoritmo assume o papel de apóstolo moderno.
Procissão de fé ou ato político?
Quando uma reivindicação política é associada a referência divina, ela tende a ser tratada como valor absoluto, não como proposta sujeita a exame. A psicologia social descreve esse processo como sacralização de valores. Propostas sacralizadas são menos avaliadas por evidência, menos comparadas a alternativas e menos abertas à revisão. O desacordo deixa de ser interpretado como divergência legítima e passa a ser percebido como ataque moral.
A caminhada também funciona como sinal de comprometimento pelo sacrifício. O esforço físico prolongado, a exposição pública e o desgaste visível aumentam a percepção de legitimidade moral do agente, independentemente da consistência factual da pauta defendida. Esse mecanismo desloca o julgamento do conteúdo para o gesto. O custo pessoal exibido ocupa o lugar da argumentação. Alguém se lembra da crucifixão?
A presença constante de linguagem religiosa afeta ainda a atribuição de responsabilidade individual. Quando a ação política é apresentada como uma vontade transcendente, seguidores tendem a reduzir o conflito interno diante de inconsistências e a delegar o juízo moral a uma instância superior. Isso diminui a exigência de coerência empírica e enfraquece a cobrança por justificativas verificáveis. Simples assim, triste assim.
Fanatismo político-religioso
O resultado é previsível. A pauta torna-se menos permeável a crítica, o grupo mobilizado se organiza por identidade e pertencimento, e a possibilidade de revisão racional de posição se reduz. O debate jurídico e político – que deveria tratar de fatos, tipificação penal, proporcionalidade e responsabilidade individual – é substituído por uma lógica moral binária, resistente a qualquer tipo de evidência contrária. É um all in; ou tudo, ou nada!
O fanatismo político-religioso aparece quando esse padrão deixa de ser episódico e passa a estruturar o poder. Quando decisões públicas são justificadas por mandato divino, a política perde seu caráter contingente. Os erros não existem mais, já que divindades nunca erram, e a possível correção de rota deixa de ser virtude e passa a ser vista como traição – que digam os ex-aliados bolsonaristas, transformados em inimigos mortais.
Esse tipo de dinâmica produz assimetria deliberada e interdita qualquer possibilidade de debate honesto. Quem se apresenta como porta-voz de uma verdade transcendental não discute em igualdade de condições com quem argumenta a partir de fatos, leis ou dados. A crítica racional passa a ser percebida como ilegítima ou hostil – e eu, Ricardo, sei muito bem disso! -, e a lealdade identitária substitui qualquer avaliação de mérito.
Nunca funcionou; nunca funcionará
A história mostra que esse padrão não termina bem. No Irã, a fusão entre poder político e autoridade religiosa após a Revolução de 1979 eliminou a alternância real de poder, suprimiu dissenso e institucionalizou repressão em nome da fé, com impacto duradouro sobre direitos civis e desenvolvimento social. No Afeganistão, a legitimação religiosa produziu colapso institucional, isolamento internacional e violência sistemática.
Em outro registro, mas com lógica semelhante, a Alemanha Nazista incorporou elementos de sacralização política – culto ao líder, missão histórica e moralização absoluta do conflito – que reduziram drasticamente a capacidade de oposição interna e normalizaram a violência de Estado. A retórica não era religiosa no sentido clássico, mas operava com a mesma estrutura cognitiva: verdade absoluta, inimigo moral e obediência como virtude.
Mais recentemente, experiências de nacionalismo religioso em países como a Índia mostram como a associação entre identidade religiosa majoritária e poder político corrói gradualmente instituições, marginaliza minorias e enfraquece freios democráticos, mesmo sem ruptura formal imediata. Esses casos não são idênticos entre si, mas compartilham um mecanismo central: a suspensão do debate racional em favor da lealdade moral.
A armadilha já está armada
Sociedades não entram em crise apenas por “excesso de divergência”, mas por perderem a capacidade de divergir como parte do processo político. A instrumentalização da religião não é perigosa por envolver a fé, mas por bloquear a revisão, a evidência e a responsabilidade. A democracia deixa de funcionar como um sistema de correção e passa a operar como um sistema de confirmação de certezas transcendentais.
As eleições tendem a aprofundar exatamente esse tipo de estratégia. Com Bolsonaro preso e o bolsonarismo precisando se reorganizar, a disputa não será por votos, mas por hegemonia moral e religiosa dentro do campo conservador. A instrumentalização da religião aparece como atalho eficiente: mobiliza bases fiéis, dispensa programa consistente, neutraliza cobranças e transforma adversários políticos em inimigos morais.
O risco para o país não é a eleição de candidatos que misturam política e religião, mas a normalização desse padrão. O eleitor deixa de escolher entre projetos e passa a orar de joelhos. Isso empobrece a política, enfraquece as instituições e torna qualquer alternância traumática. O desafio do Brasil é preservar a ideia básica de que política é campo de decisão humana, falível, revisável, e não extensão de um dogma religioso qualquer.
Ricardo Kertzman
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